sexta-feira, 5 de agosto de 2011

"Não Verás País Nenhum", Ignácio de Loyola Brandão


Se tivesse sido escrito em 2011 era já de si uma obra impressionante, bem perto do nosso mundo de hoje. Mas “Não Verás País Nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão foi dado á estampa em 1981 o que o torna ainda mais impressionante.
Estamos em S. Paulo, num Brasil dantesco consequência de uma pilhagem total dos recursos por parte dos diversos grupos dirigentes.
Álvaro Souza, ex-professor de história, vive acomodado a esse mundo, num prédio de apartamentos com a sua mulher Adelaide. Tem um casamento e uma vida rotineira. Com a sua ficha especial de circulação para o S-758 dirige-se todos os dias para o seu burocrático e surrealista emprego onde dezenas conferem intermináveis de números debitados pelos computadores. Almoça na lanchonete a que está adstrito, urina nos Postos Apropriados, onde a urina é reciclada em água para consumo público.
Souza vive a sua vida burocrática num regime totalitário, dirigido pelo Esquema ( geral e estadual) que está ao serviço dos Militecnos instalados nos bancos, ministérios e empresas e apoiado nas forças repressivas do Novo Exército e Civiltares.
É a época que se seguiu á Era da Grande Locupletação, num Brasil que destruiu a Amazónia e a transformou num imenso deserto – a 9º Maravilha do Mundo. S. Paulo é uma cidade superpovoada, dividida em sectores estanques, com limitação de movimentos, com escassez de água e comida, sob um clima abrasador onde pululam as mais diversas doenças.
Despedido do emprego, Souza inicia um novo percurso por um submundo que desconhecia. Envolvido pelo seu sobrinho – capitão no Novo Exército – em esquemas de corrupção e lutas entre os diversos grupos no poder, abandonado pela mulher Adelaide, expulso do apartamento onde habitava, a sua vida rotineira termina para iniciar uma luta pela sobrevivência ainda mais desesperada. Nessa nova vida encontra Elisa, uma mulher que á a antítese de Adelaide e que vive intensamente cada segundo de existência nos interstícios desse submundo.
Álvaro de Souza é um personagem joyciano que percorre uma S. Paulo dantesca e onde vai enfrentar a sua responsabilidade individual que no passado levou á construção da sociedade apocalíptica onde vive, caminhando para uma nova luz que descobre em si próprio.
É uma obra admirável, uma  ilustração dos Estados falhados preconizados por Robert K. Kaplan no seu “The coming anarchy”. Pleno de tensão e melancolia somos surpreendidos a cada página por expressões como A Casa dos Vidros de Água, o Distrito de Compras, o Ministério das Obras Faraónicas Populares, o Tempo das Crianças Exterminadas, os Distritos Circulantes, o Bairro dos Ministros Embriagados que graficamente ilustram como o poder construiu esta demoníaca sociedade.
É uma das grandes obras da literatura de língua portuguesa agora reeditada pela Babel/Uliseia. Quando chegamos á última página surge imediatamente a vontade de a reler.
Países ditos irmãos, Portugal e Brasil vivem de costas voltadas no que toca á partilha da literatura publicada nos dois países. Temos as livrarias cheias de literatura internacional mas por razões que escapam ao comum dos mortais, a literatura brasileira contemporânea raramente nos alcança. Felizmente que episodicamente nos chegam obras como este “Não Verás País Nenhum” de Ignácio de Loyola Brandão.

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