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sábado, 24 de setembro de 2011

"Nervo", de Diogo Vaz Pinto


É o fascínio pelo abismo que me leva a escolher entre dois livros de poesia aquele de cujo autor nunca ouvi falar?
Na prosa isto é menos intenso. Os media anunciam, comentam e criticam os autores da moda mas também aqueles desconhecidos que a razão económica das editoras, na sua febre constante pela novidade, empurra para as prateleiras.
No mundo minimalista, quase secreto e clandestino da edição de poesia, o fenómeno é diferente. De qualquer maneira, entre o poeta laureado ou credenciado, escolho sempre o desconhecido.
Foi um destes saltos para o abismo que dei quando comprei “Nervo”, de Diogo Vaz Pinto, numa edição Averno. E afinal não caí nem me esmaguei. Bem pelo contrário. Flutuei nas correntes termais da sua poesia.
Dele sabia apenas ser um jovem poeta ligado ao Núcleo Autónomo Calíope, da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa.
Começo pelo mais rápido e curto e dizer aquilo de que não gostei. Não gostei de um excesso de citações de autores a introduzir diversos poemas. Desviam a atenção para outros horizontes, criam a angústia do regresso á leitura desses autores, diminuem a concentração sobre o poema.
Diogo Vaz Pinto não é um poeta militante da análise das contradições da sociedade: “Contra o mundo, prefiro a poesia / descomprometida, arredada de inúteis militâncias…”. É um poeta das contradições do eu com o outro, em especial do outro mulher. Não é um poeta lírico parnasiano mas um poeta lírico do dia-a-dia que o eu percorre. Diria ser o poeta vagabundo da melancolia e da cidade.
A palavra do poema procura a luz e o prazer, os cheiros, procura e encontra a solidão e o tédio.
Percorre a cidade “Lisboa pela tarde tem este gosto / a delírio manso…” Da cidade para a habitação, para o intimo interior físico e para o íntimo do eu e das suas relações amorosas: “De costas olho-te e imagino-te / no aborrecimento dos anos com algum / romance nos joelhos…”. Não é a poesia do encontro, da relação e do contacto com a surpresa do oposto feminino. É a poesia da melancolia do depois.
E  assim surge a solidão e a introspecção do eu: “Deitei a tarde pela janela e fiquei só..”. E essa solidão, que olha para o presente e para o passado vivido, reforça-se na repetição rotineira dos actos diários: “Entro no supermercado, atravesso / sozinho os corredores enquanto penso / na glória obscena e acessível / deste nosso princípio de século”.
O olhar do poeta percorre as pequenas coisas do quotidiano: “Pouso a chávena no parapeito.”, “ guardei o recibo que não serve para nada” ou ainda “Na cozinha, o pequeno rádio, os frascos / com doce e os olhos com que vens / brincando em tons de mel”.
Estamos confrontados com um poeta que vai ser uma referência incontornável na nova poesia portuguesa, bem mais interessantes que encontrei recentemente.
São cento e vinte páginas que mostram já uma produção abundante e que anunciam novos espantos poéticos ao leitor das suas obras futuras.

terça-feira, 26 de julho de 2011

É a Lírica de Camões, senhores...


Direi apenas que no estudei os Lusíadas com Vergílio Ferreira, no Liceu Camões. A sério. Infelizmente também muitas coisas de Camões ficaram de fora. Havia, também, edições estupendas de Maria Ema Tarracha Ferreira, de textos de literatura portuguesa, que abriam portas para outra poesia de Camões e outros poetas portugueses .Havia também a Sá da Costa, com Bernardim Ribeiro e Filínto Eliseo
Sou pai de dois filhos que, desde pequenos, olhavam para os livros nas estantes mas a quem nunca empurrei para os lerem. Descobriram-nos quando quiseram e como quiseram. Começou a haver buracos entre os livros nas estantes mas tinham apenas viajados para outros quartos. Um lia mais poesia o outro literatura contemporânea.
Hoje, que já saíram para casa própria, os buracos continuam: Pynchons, Senas, Ginsbergs, Camões.
Tenho, casualmente, tentado repôr essas faltas. Quando vou a livrarias procuro Camões. Nunca o encontro. Ás vezes apenas as edições para estudantes de os “Lusíadas”, ás vezes nem isso.
Até que decidi ir á INCM. Lá estavam os três volumes da Lírica. 18,17 euros, preço pré-crise. Comprei o que estava em falta, o volume I, o do Sobolos rios…
O meu espanto é que a edição, a 2ª, é de 1986!!! Três mil exemplares! Este deve ser o último! Nem ISBN ainda coloca!
Tento imaginar-me no Reino Unido a tentar comprar os Sonetos de Shakespeare. A dificuldade seria certamente escolher uma das edições, se a de bolso, a cartonada ou a com gravuras. Imagino-me em França á procura de Villon ou em Itália á procura de Petrarca.
É a Lírica de Camões, senhores. Uma qualquer ediçãozinha de bolso, em papel de jornal, com capa a duas cores, por favor. Não precisa de ser anotada ou edição crítica.
É a eterna pescadinha de rabo na boca. Não o lêem por que não o encontram ou não há porque não o lêem?

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Criatura nº5 - revista de poesia

Já tinha ouvido falar dela várias vezes. Tinha até tentado ir ás livrarias da Faculdade de Letras de Lisboa para a comprar mas diversos ataques de preguiça tinham frustrado essa compra. Até que um dia a encontrei na Fnac.
Chama-se “Criatura” – o seu sítio é este - esta revista de poesia. Reporto-me ao número 5, o mais recente. É editada pelo “Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa”.
Abrir um livro e poesia cujos poetas se desconhecem é sempre fascinante. Quando agarramos um poeta conhecido, mesmo que nunca o tenhamos lido, estamos sempre sujeitos a uma leitura ligeiramente influenciada pela sua popularidade. Com os desconhecidos é sempre uma excitante aventura.
Como diz Roger Wolfe, um dos poetas da colectânea, “Poemas’/alguns funcionam/outros não./Se o que queres é uma garantia,/ então compra uma televisor.”.
Novíssimos poetas de diferentes sensibilidades, o que mais sentimos é a qualidade que atravessa todos os seus catorze poetas.
São poemas da nossa contemporaneidade, dos nossos tiques urbanos e dos nossos anseios: “Como todos os negócios com direito a um espaço comercial,/ o nosso afecto ocupava o tempo de antena da primavera,/ os bancos do cinema King,/ o lugar estratégico das estrelas,/ o vazio da Web e o mal estar das massas”.
Nesta “Criatura” estão representados poetas já com obra publicada e outros que ainda a não se estrearam com obra própria mas isso não podemos deduzir ao longo da leitura. Poesia do nosso descontentamento? O que encontramos é uma poesia dos restos que ficam dos nossos dias que passam “ em chamadas e recados e tarefas”.
Esta é verdadeiramente, como dizia a saudosa, poesia para se comer, com sabor e cheiro a pão fresco, acabado de cozer.
Uma capa negra, uma estrutura sóbria e misteriosa, esconde a intensa luminosidade dos poemas.

Criatura nº5
Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa
Direcção de Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto
Pag. 153
ISBN 9789899592131

sábado, 9 de julho de 2011

um brinquinho


Mais uma entrada na Livraria "Poesia Incompleta" em Lisboa


um brinquinho



El cálamo del poeta,

Abu Tammam ibn Rabah de Catalatrava, Hiperión